ANDANÇAS
Em 1975, um contato com Renato Corrêa de Castro, então coordenador do "Fantástico" / Rede Globo, levou Saulo para São Paulo, onde sua carreira se firmou definitivamente. O point agora era a Boate Igrejinha, onde Simone e Milton Nascimento eram algumas das atrações.
Saulo contou também com o apoio do publicitário Marcus Pereira, cuja chancela tinha na época valor inestimável. Saulo então conheceu o seu grande parceiro, irmão de sonhos, cantos e estradas, Dércio Marques, um autêntico e importante divulgador da cultura regional. Os dois se tornaram grandes amigos e Saulo passou a ser integrante do grupo Ínkari ao lado de Zé Gomes, Doroty Marques e Dércio Marques. O grupo se apresentava no circuito universitário, ao lado de nomes emergentes, como Tarancon, Irene Portela, Tom Zé, Passoca, Almir Sater, Renato Teixeira, Sérgio Ricardo entre outros. Incluído num projeto da Secretaria de Cultura de São Paulo, o Ínkari percorreu mais de sessenta cidades do interior paulista.
Enquanto isso, Saulo participava de um grupo paralelo, o Cantochão, ao lado de Priscila Ermel, Sérgio Sã, Eunice e Dércio Marques. Sempre envolvido com a cultura popular, seja como pesquisador, seja como divulgador, Saulo não abandonou sua terra e suas raízes, onde sempre voltava para buscar o artesanato e a essência da alma daquele povo, que levava para a metrópole. Nesse período de efervescência, Darlam Marques desempenhou um papel fundamental na carreira de Saulo, acompanhando-o ao violão e ajudando-o a formatar aquela linguagem artística ainda não vista de maneira tão densa, transformando aquele clima rústico em um estilo suave de expressar a linguagem do Brasil sertanejo e, sobretudo, latino-americano, em uma atmosfera bem pessoal. Foi então que Saulo encontrou o percussionista maranhense Papete que, na época, fazia a direção musical da Boate Jogral, um espaço cultural que contava com um grande sucesso de público e crítica e onde se apresentavam grandes nomes da MPB. Convidado para se apresentar naquele espaço, Saulo caiu de vez nas graças do público e dos formadores de opinião. A batida da zabumba e o canto forte de Saulo começaram a romper barreiras.
Em 1978, junto com a folclorista Vera Rosa, montou na Alameda Santos o "Fulô da Laranjeira", de onde herdou o nome artístico Saulo Laranjeira, um centro de cultura em que o artesanato do Jequitinhonha e de outras regiões do país se misturavam a lançamentos de livros, exposições de pintura e apresentações de discos do circuíto independente. No final da noite, o público era brindado com "canjas" musicais inesquecíveis, como a do conterrâneo e seu músico instrumentista de show Paulinho Pedra Azul, um grande amigo de infância que nas andanças com Saulo, foi lapidando o seu lado compositor e de intérprete. Também se apresentavam o grande violonista Celso Machado, o cantor Filó, Venâncio e Corumba, Banda de Pífaro de Caruaru, Grupo Maria Déia, Banda de Pau e Corda, Xangai, Elomar Figueira de Melo, Quinteto Violado, Arthur Moreira Lima, Geraldo Vandré, Heraldo do Monte, entre outros que, sempre que estavam na cidade, faziam questão de dar o ar da graça na Fulô. Daí para a "Fulô da Laranjeira" tornar-se bar, era um caminho natural. O bar logo tornou-se ponto de encontro e casa de espetáculos. Com os irmãos João Muniz e Tavinho Muniz, sempre seus grandes pilares na carreira, Saulo fez da "Fulô" um verdadeiro centro de cultura, um espaço comprometido com o espírito da cultura popular e a alegria daqueles que queriam se aproximar de suas raízes e do Brasil interior. O bar "Fulô" durou até 83, motivando uma versão em Belo Horizonte. Foi na "Fulô da Laranjeira" que Saulo se consagrou definitivamente como agitador cultural e aglutinador de tendências.
Estava consolidada uma geração marcada pelo sonho da arte pela arte. Artistas empunhando instrumentos musicais, papel e caneta, uma câmera e uma idéia na cabeça. Tocavam e cantavam nos bailes da vida, dando voz ao país do interior, um país calado e descaracterizado pelo governo de chumbo. Visionários de um Brasil mais justo e com uma cultura independente e popular, homens e mulheres que não se curvavam à dominação dos ideais, à verticalzação das mentes. Eles queriam semear sonhos.